30 maio 2011

Media: Cecília e Leonardo
(MLV - DN) Ela só sai de casa de quinze em quinze anos e, quando o faz, é para se mostrar a quem ainda não teve oportunidade de a conhecer. Chama-se Cecília e aterra amanhã em Madrid rodeada de seguranças e de mordomias próprias de alguém que é intocável e, que por assim ser, tem direitos adquiridos

Por detrás desta mulher, tão bela quanto a tela em que está representada, há uma triste história de amor. As grandes obras de arte são assim, encerram contos de outras épocas que nos fazem entender melhor um sorriso enigmático ou uma simples postura das mãos. Cecília confessou-se a Leonardo, o grande mestre a quem Ludovico Sforza, duque de Milão (século XV), pediu para retratar a sua jovem amante, de 17 anos, que lhe viria a dar um filho, e que acabou por ser rejeitada em virtude de interesses políticos que levaram o mecenas italiano a casar-se com Beatriz d'Este. Dessa confissão ao pintor, datada de 1490, nasceu A Dama com Arminho, um dos poucos quadros que Leonardo da Vinci deixou para a posteridade.

Era bonita, Cecília Gallerani. Tinha tudo para ser mais do que uma amante preterida, e Leonardo sabia-o. Desenhou-lhe uma cara e umas mãos dignas de uma princesa do Renascimento, as mãos são perfeitas, longas, de alguém que sabe mais do que aparenta. Cecília fez versos para o amigo pintor, cantou e discutiu filosofia com ele. Leonardo agradeceu-lhe com a força de um traço que faz desta obra um tesouro dos sentidos.
Cecília morreu em 1536. Ficou para a história da pintura como uma das mais belas modelos do mestre dos mestres, mas também surge em documentos da época como uma grande poetisa, que se expressava em latim e que organizava tertúlias. Ao desgosto causado por Ludovico sobreviveu com um casamento que lhe deu mais quatro filhos e uma vida digna que terminou no Castelo de São João da Cruz, perto de Cremona.

Do quadro que a imortalizou não se sabe que caminho seguiu até ser encontrado, em 1939, num castelo na Polónia, propriedade da família Czartoryski, que foi ocupado por soldados alemães aquando da invasão ordenada por Hitler. Dali foi transportado para o Museu Kaiser Friedrich, em Berlim, onde permaneceu até ser reclamado pelo general Hans Frank, o alemão responsável pelo governo da Polónia, que o pendurou na sua própria casa. Mais tarde, finda a II Guerra, depois de ter sobrevivido a este e a tantos outros sobressaltos, voltou a estar na posse dos seus proprietários e a encher de brilho o museu de Cracóvia, a quem os Czartoryski doaram toda a sua colecção.

A partir de amanhã e até Setembro, Cecília, Leonardo e o quadro vão estar no Palácio Real de Madrid. Depois visitam Londres e Berlim. Em 2012, regressam a casa. E descansam mais quinze anos.

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